Adoro aparecer, fazer o quê? Nasci assim, com máscaras variadas, desgovernadas, que visam a entreter o não e o sim. Há quem as aprecie. Há quem faça piada. Há quem nada veja em meu jardim. Há quem ame, há quem odeie e até quem reclame por expor-me assim. E por mais borrados os tais rascunhos de pessoa, banco o esboço com expressão no punho, independente de como o rabisco ecoa. Emito meu certo errado sem temer aquele que lê, seja nos momentos de grandeza em que abusei do que não pude ter, ou nos de extrema fraqueza em que passei por “boas” sem usar dublê.
Minha platéia? Nunca foi problema. Medo maior é cair em clichê, como os fracos que escondem seus dilemas manipulando as cenas… deixando toda a honestidade que havia em si, morrer. Agem nos bastidores por temerem a opinião dos demais. Estes, sim, são perigosos atores, carentes de valores emocionais. Estrelas passageiras do supérfluo medo do “vencer” ou “perder”. E para não ser escravo desse ego sagaz eu os encaro, eu piso, eu falo. Dificilmente minto. Raramente calo. E quando vejo que falho corro atrás. Mas sem me desculpar por entrelinhas como gente mesquinha faz. Para tais animadores lhes confesso que jogo, porque infelizmente jogam demais. Preferem blefar ao pôr as cartas na mesa, feito coringas de uma tristeza voraz, que não se deixa transparecer. Geniais profissionais, reconheço. Só deveriam aprender que apenas o perdão e as boas atitudes são dignas da paz que tanto almejam.
Venho de outra escola, criado num cenário sem cortinas. Não careço delas para me proteger enquanto lacrimejo o que não pôde ser. Panos rubros sempre foram peçonhentos demais para esconder um sagitariano apaixonado, que adora se promover. Um cara quase desprovido de mistério, quase desinteressante, tão difícil quanto fácil de conviver. Depende daquilo que você planta em meu instante, daquilo que você deseja colher, porque o que existe em mim vem com bula, para que fique claro aos mais ignorantes meus momentos de glória e de vexame, de ódio e de ternura, de alegria e de tédio, mesmo que essa louca carência de dividir o palco me destrua, transformando-me num solitário farejador de aventura, um Peter Pan em busca de assédio.
E não se engane: Eu me importo muito com o cachê. Por trás de cada terno que visto há uma postura de quem compra querendo vender. Pago para ver a reação do público perante minhas travessuras apresentadas em facetas duras, protegidas por armaduras boas e ruins. Ora convincentes. Ora tolas e inconvenientes. Nunca escondi meus demônios mesmo, quiçá os querubins. E é bom certo cuidado, não abandono nenhum dos dois. Depende de como você se quer adorado sabendo que será julgado depois. Afinal é difícil saber de imediato se lhe darei meu céu ou meu inferno, quem sabe os dois? Ambos estão abertos e a casa é confiável. Só tira o sapato antes de entrar. A faxina é constante e as chaves ficam comigo para regular a forma pela qual pretendes pisar. Afinal de contas, um pouco de prevenção se faz preciso, já que o radar da curiosidade alheia me deixa atordoado, a espera das flores que devem chegar, ou, vai saber, dos granizos.
Portanto, caro convidado, amigo ou inimigo, tens conhecimento suficiente das normas da casa e deve utilizá-las sempre que preciso, assim como a sua função quando dentro dela. E pareça-lhe ou não superficial a forma com que o anfitrião se comporta, não fará tanta diferença… não é por sua opinião que ele se molda. As satisfações foram um convite para te preservares ao abrir a porta, que raramente fica trancada. É a pretensa maneira de um ser que me acompanhará sempre, como necessidade fundamental de uma passageira estada, de forma concreta e transparente, porque aprecio divulgar de cara limpa meu tudo e meu nada. E a este tipo de jornada eu chamo vida. E vida não se pode esconder. Antes tê-la polêmica do que engasgada. E por amá-la e odiá-la incessantemente assumo-a plenamente, guiando-a como sempre fiz, através das águas frias e calmas, agitadas e quentes, que movimentam ondas de marés pouco inocentes, revelando um ser de altos e baixos, quase sempre querido, quase sempre amigo… quase sempre feliz.