Chá

26 de agosto de 2007

Pois é… aqui separamo-nos. O elo materno se rompeu. 
Cá eu, sem teu cordão, em estranhos oceanos, 
vagando… recordando valores teus.
Estranho pensar em você aqui.
 Soa tão ingrato. Tão distante. 
Tantas perdas e ganhos, tantos amores irrelevantes, 
para somente agora, firme e só, 
dar-me conta de que és, e sempre serás, 
a dádiva mais limpa, o habitat mais importante. 
Não imaginas o quanto mudei. 
O quanto o faminto aquietou. 
Aprendeu que mergulhar em busca de vida, 
guiada por pressas densas, juvenis e desequilibradas, 
é torturar-se em euforias vencidas por uma felicidade inventada.
Perdoe o excesso de egoísmos caros. A louca procura por momentos raros. 
Pois somente agora, teu fantasma à solta percebeu, 
que recebeu por toda a vida, amor inigualável até o talo. 
Sentimento que nunca lhe devolveu, na proporção que mereceu. 
Talvez este seja o ingrato preço de um caçula que vive do “somente eu”. 
Perdoe o excesso de egoísmos caros. A eterna procura por momentos raros. 
Perdoe-me.
Por renegá-la diversas vezes com silêncio enquanto buscavas instantes de conversa.
 Foram às ingênuas inquietações, fruto da estúpida pressa, 
excesso de trabalho, amigos, aventuras das mais desvairadas proporções, 
tudo pelo ciclo do próprio umbigo, tudo para me entorpecer de falsas emoções.
Talvez esta busca tola e crua, seja hoje meu pior castigo. 
Carregar o fardo de ter pertencido as futilidades 
de um mundo perdido, inquieto, carente de sentido, 
fazendo-me esquecer que surgi do teu ventre, 
atropelando sublimes momentos familiares, 
dos quais, hoje, me vejo carente. 
Tanto excesso de egoísmo caro. 
Tanta procura por momento raro.
Perdoe-me. Que o mundo corra no ritmo que vier. 
E que ninguém nos socorra. Vou enfrentá-lo de pé, manso e devagar. 
Meu templo é independente, não careço mas de fé para lutar. 
É fato, jamais ficarei de joelhos novamente, pondo-me entre os fracos a chorar. 
Pois guardo em mim tua cantiga, amada mãe, repleta de sábios conselhos. 
Prometo a ti, perfeição singular, realizar teu maior anseio. 
De agora em diante, família em primeiro lugar.
Mulheres, amigos e afins, falo dos que não fazem parte do lar, 
que se entupam de buscas incessantes, 
e quando despencarem em desesperos inquietantes com o ritmo do universo a sua volta, 
que passem lá em casa para nos visitar e sintam os anjos da alegria penetrarem em suas portas. 
Aposto que admirarão nosso reino e teu sereno semblante, 
enquanto lhes servimos aquele delicioso chá,
para acalmá-los das revoltas internas e fazê-los compreender 
que as pequenas e simples coisas da vida, são as que justificam o viver. 
Por isso lhe sou grato por tudo. 
Por tê-la em meus dias. 
Bem vivo, diria. Solitário, talvez. 
Pois nem tudo o que me ensinaras fora verdade. Nem todas as verdades suportei. 
Sua pele, seu caráter, seu jeito doce, seu abraço que me protegia, 
sua paciência que me acalantava, seu olhar que me engrandecia. 
Sua aptidão pela arte e para arte. Seu encanto. Sua essência. 
Curvando-se sabiamente a tristes submissões, 
apenas para gerar o bem maior, sua santa ciência.
Só queria dizer que estou levando comigo, mãe, tudo o que vem de você. 
Só queria dizer que tu me tornaras homem, mãe, pronto para viver. 
Conectado com aquilo que o mundo tem de mais belo. 
Mesmo sabendo que perdemos nosso saudoso elo, 
que de fato não será o mesmo quando eu desembarcar. 
Certamente não sei em que teto irei repousar. 
Mas garanto, que jamais faltará tempo, 
por onde quer que seu caçula vá, 
para gozarmos, sempre, do nosso maravilhoso chá.
 

A Paz dos Pés

17 de agosto de 2007

Definitivamente luto só. Sozinho. E por querer estar. E por querer lutar. Por compreender que a revolucao, agora, passou a ser individual. A minha despertou e não existe forma de manifesto mais conveniente. Protejo meu campo e minha cria. Rezo pelos teus e pelos meus. Para se equilibrar em complexos vínculos, é preciso tragar as energias mais adversas, respeitando tudo aquilo que o limita.

Cigarra e Jô, jogavam…

7 de junho de 2007

Joaninha voa plena.
Ciente de calar a cigarra.
Trazendo beleza no emblema,
cria angustia no bicho, que cala.

Em seu mudo canto de perda,
manteve o sorriso na vala.
Escondeu-se com esmera destreza.
Reprimiu-se em sons sem batalha.

Com as negras manchas expostas.
Abusou do rubro destemida.
Perdeu-se em ares e rotas.
Deprimiu-se em inseticidas.

A cigarra sabia do mal.
De vingança, sequer alertou.
Manteve o orgulho em sal.
Vendo Joana sofrer a dor.

Às matas a trova voltou.
Berrando alto a morte em vida.
Em cantos livres resvalou,
lágrimas de cigarra sentida.

In verso

3 de junho de 2007
Seja um só.
Mas seja você.
Seja tudo.
Não seja, sem ser.
Seja apenas.
É.
Seja apenas você.

Ou então

Você apenas seja.
É.
Apenas seja.
Ser sem, seja não.
Tudo seja.
Você seja, mas
só um seja você.

Peregrinas Catalépticas

27 de abril de 2007
Por medo do tempo, pela carência ou solidão,
doam-se a qualquer palhaço capaz de ouvi-las com atenção.
Esquecem que o futuro, incerto como o perdão
,
quando ignorado é aliado amargo de um resultado vão.
E os erros obscuros causados por inseguranças claras,
rebelam-se em arrependimentos homeopáticos que não amenizam.
E os frágeis ventres das tristes falhas,
alimentam-se de tudo o que não foi vivido.
Talvez por terem fugido da dúvida entre o sim e o não.
Talvez por terem esquecido que o jogo do poder nasceu parido.
E em seus desorientados vulcões… por apelos aquecidos,
brotam novas erupções em berros quase sempre ausentes,
acalmados em um sexo ardente, sem valor, sem amor, sem sentido.
Consolam-se em colchões moles, flexíveis e maleáveis,
lutando para inibir um tempo que as assola,
que de abandonado não se deixou esquecido.
É fardo irrecuperável. Imutável. Irreversível.
Não permite choro nem vela… somente a pá.
Para tapar cada milímetro de ar,
sufocando a vida que pelo medo se rendeu.
Para tapar e cavar…
Um interior que não se resolveu.
Uma ausência que não se desprendeu.
Um mal que não se dissolveu.
Para tapar e cavar.

Torrado e Moído

12 de abril de 2007

Num misto de orgulho e desprezo vou suportando a humanidade
e todo o seu semblante cínico de amargar,
toda a sua covardia barata que cansa a alma.
E o café que ninguém traz ? Com açúcar, por favor…
Gentinha mais sem sal, sem esperança, povinho mais sem cor,
que suporta e ignora tudo numa autopiedade de dar dó.
Será que é pedir muito ou só eu busco a liberdade?
Ninguém tenta se consertar, mexer aqui ou acolá.
Ninguém se enfrenta, se fala, discute a vida e suas tendências sociais.
Cadê o café que ninguém traz ?

Nunca vi tantas felicidades cansadas como ultimamente,
entregues ao medo das próprias falhas, das inseguranças comuns.
Ajoelham-se por migalhas que preenchem uma vidinha vazia.
Vazia da paz que resolveu ir de encontro ao conformismo
numa serenidade que só se alcança em tristes fugas.
Gente sem amor, sem esperança, sem luta, sem fé, sem luz.
Alguém sabe do meu café ? Aonde foi que eu pus…

Bom mesmo seria poder andar sem pensar em nada.
Sentindo no vento o prazer de se saber capaz.
De poder caminhar com a cabeça erguida,
para que aquele que conviva comigo possa fixar meu nome.
Apenas fixá-lo, com ou sem prazer no tom,
mas nunca, nunca me taxar de morno,
como a porcaria deste café.

Insônia da Bonitinha

31 de março de 2007

Queria ter outra cabeça.
Aceitar a diferença dos outros.
Viver intensamente o pouco a pouco.
Gozar do melhor que a vida tem.

Queria não estar menor agora.
Para dizer-te que outrora.
Tive medo de ir além.

Hoje só quero mais cabeça.
Por mais louco que pareça,
com você me sinto bem.

Que Deus nos ajude.
Que o mudo nos mude.
Que minha cabeça se perca em virtudes.
Para nunca magoar alguém.

Presença Ausente

28 de março de 2007

Sua ausência enerva.
Confunde. Dissolve.
Ilude. Entristece.
Comove. Enlouquece.
Deixa o mundo rude.

O mundo rude enlouquece.
Comove. Entristece.
Ilude. Dissolve.
Confunde.

Sua ausência me enerva.

Há Olhos Nus

18 de março de 2007

Poeira astuta que me quer cegar.
Permita-me mais goles sujos.
Vomitá-la para não engasgar,
todo o pranto preso mudo.

Ciscos doentes que me aborrecem,
esfregando-me a visão do impuro.
Tão triste foi me enganar.
Tão forte vê-la sem rumo.

Coça naquele que aborrece.
Surra que não se esquece.
Colírio que não se entende.

Cego os julgos com miopia,
nas retinas da hipocrisia,
para suportá-la eternamente.

Enzima

10 de março de 2007
Voe, voe alto. Voe muito, muito alto.
Extrapole até onde achar que deve.
Vá com sua inclinação às vezes pra lá de acentuada,
medindo forças erradas, feito criança mimada teimando greve.
Até encontrares teu topo, passarinha, diga-me o que vê lá do alto.
Use sua aerodinâmica volátil para entender
se foi delize ou erro de cálculo.
Veja se por detrás das colinas há a possibilidade
de um ninho mais aconchegante, que suporte ambiciosos saltos.
E não se acomode até entender se ficamos pequenos lá de cima.
Depois, batiza-te com amor e gasolina
para quando retornares suportar nosso humor,
pois será este a nova enzima.
Voe sabendo que pairar nos ares do esquecimento
é o mesmo que apostar em maus passatempos,
que oferecer-se como presa preferida das perigosas carabinas,
alvo predileto dos maliciosos caçadores de rapina.
Por isso imploro que desças desse penhasco cinzento e pouse.
Nem que seja para dizer se devo ou não
aparar minhas asas pequenas e entender de vez seus problemas
e toda essa razão para tantos longos vôos
sempre promovidos por asas cheias de envergaduras.
Depois podes decolar sem compostura e voar para o longe.
Mas se decidir por ficar, então que pouse,
adormecendo todos os seus problemas
em minhas sensíveis penas consoantes,
daí sim, descanse teu aventurado bico e repouse.
Mas enquanto isso, passarinha, também migrarei de galho em galho,
passando o caralho em novas aves peregrinas.
Seria esta a minha predestinada sina? Se for, então por favor…
preciso aprender a voar como você, preciso de enzimas.